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Caixa-preta revela piloto comparando avião da Voepass a um 'Fusquinha' e admitindo falha no sistema de degelo: 'Essa b** não tá funcionando'

Análise feita pela Polícia Federal mostra que tripulação já convivia com falhas no sistema de degelo. Diálogos registrados na cabine revelam a percepção dos pilotos sobre o acúmulo de gelo e os problemas da aeronave pouco antes da perda de controle.

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A investigação da Polícia Federal sobre a queda do avião da Voepass, que deixou 62 mortos em Vinhedo, no interior de São Paulo, revelou novos detalhes sobre os momentos que antecederam o acidente, segundo reportagem do Fantástico. O laudo pericial, elaborado com base na análise da caixa-preta, aponta que a aeronave já apresentava falhas recorrentes no sistema de degelo em voos anteriores e que o problema era conhecido pelas tripulações. As conversas registradas na cabine mostram pilotos comentando o acúmulo de gelo, a dificuldade para restabelecer o funcionamento do equipamento e a preocupação durante a operação.

Segundo o documento, o sistema responsável por evitar a formação de gelo nas asas apresentou repetidas falhas antes mesmo do voo que terminou em tragédia. Em uma das gravações, o comandante chega a comparar o avião ao personagem Herbie, conhecido como o “Fusquinha” dos cinemas.

Conversas registradas mostram que problema já havia aparecido antes do acidente

Os peritos reconstruíram os últimos voos da aeronave e identificaram que o alerta AIRFRAME FAULT, responsável por indicar falha no sistema pneumático de degelo, apareceu diversas vezes antes do acidente.

Durante o voo realizado entre Guarulhos e Cascavel, pouco antes da viagem para São Paulo, um dos pilotos comenta o desprendimento do gelo acumulado na estrutura da aeronave.

“O gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou”, afirma o comandante.

Após o pouso, em outro trecho da gravação, ele responde ao copiloto com uma frase que chamou a atenção dos investigadores.

“Chegamos vivos.”

Pouco tempo depois, a mesma aeronave voltou a decolar para realizar o voo que terminaria na queda em Vinhedo.

Comparação com um Fusquinha aparece durante sequência de alertas

Logo na subida, os pilotos voltam a receber um aviso de falha relacionado ao sistema de degelo.

Enquanto conversavam sobre a possibilidade de evitar áreas de formação de gelo, o comandante faz uma comparação incomum.

“Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie.”

Para a Polícia Federal, naquele momento o sistema já indicava uma falha que exigia um procedimento específico previsto pelo fabricante. A orientação era deixar imediatamente a região com formação de gelo. Entretanto, os dados extraídos do gravador de voo mostram que essa medida não foi executada.

A investigação destaca que a aeronave permaneceu em condições favoráveis ao acúmulo de gelo, fator que compromete gradativamente a capacidade de sustentação das asas.

“Essa bosta não tá funcionando”, diz comandante ao tentar acionar o sistema

Quase uma hora depois, durante a aproximação para São Paulo, os registros indicam que a situação se agravou. O copiloto observa o aumento da formação de gelo e tenta novamente ligar o sistema responsável pelo degelo da aeronave.

A resposta do comandante foi registrada integralmente pela caixa-preta.

“Essa bosta não tá funcionando.”

Logo depois, os equipamentos da aeronave começam a emitir uma sequência de alertas automáticos. Primeiro aparece o aviso de degradação de desempenho, seguido pela mensagem Increase Speed, orientando o aumento da velocidade.

Na sequência, o alarme de estol passa a soar continuamente durante aproximadamente 48 segundos.

Pouco depois, entra em funcionamento o sistema de alerta de proximidade com o solo, emitindo repetidamente o comando “Pull up”, utilizado quando existe risco iminente de colisão.

Segundo os peritos, em menos de um minuto a aeronave perdeu sustentação, entrou em estol e passou a girar até atingir o solo.

Polícia Federal aponta falhas operacionais e repetição de procedimentos

A perícia também identificou que o alerta AIRFRAME FAULT havia sido registrado em pelo menos outros três voos anteriores realizados pela mesma aeronave.

Sempre que a falha aparecia, as tripulações adotavam o mesmo procedimento: desligavam e religavam o sistema de degelo na tentativa de restabelecer seu funcionamento.

No voo imediatamente anterior ao acidente, o alerta foi registrado oito vezes, com pelo menos cinco tentativas de reinicialização do equipamento.

Para os investigadores, esse histórico demonstra que o comandante conhecia a existência das falhas intermitentes antes da decolagem para o voo entre Cascavel e Guarulhos.

Mesmo assim, a aeronave foi utilizada em uma rota que possuía previsão meteorológica indicando formação de gelo.

Outro ponto destacado pela investigação é que essas falhas não foram registradas formalmente nos documentos de manutenção da aeronave.

De acordo com a Polícia Federal, caso os problemas tivessem sido anotados conforme previsto nos procedimentos operacionais, o avião não poderia ter sido liberado para voar em condições meteorológicas favoráveis à formação de gelo.

Investigação aponta sucessão de barreiras que deixaram de funcionar

Além dos problemas relacionados ao sistema de degelo, o laudo também menciona uma falha no limpador do para-brisa da aeronave.

Embora esse item não tenha sido apontado como causa direta do acidente, os peritos afirmam que a aeronave foi despachada para operação mesmo apresentando uma condição que contrariava a Lista de Equipamentos Mínimos diante da previsão de chuva no destino.

A conclusão da Polícia Federal afirma que o acidente foi provocado pela combinação de diversos fatores. Entre eles estão as falhas recorrentes no sistema de degelo, a operação da aeronave em área com formação severa de gelo, o descumprimento de procedimentos previstos pelo fabricante e a perda sucessiva das barreiras de segurança que deveriam impedir a continuidade do voo em condições inadequadas.

O inquérito criminal deve ser concluído nos próximos dias e apontará os possíveis responsáveis pelas decisões operacionais relacionadas ao acidente que resultou na morte de 62 pessoas.

Por: G1

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